Na noite
de 15 para 16 de Janeiro de 1630,
a cidade de Lisboa acordou consternada. Assaltantes
sem escrúpulos
entraram na Igreja de Santa Engrácia e, arrombando
o sacrário, furtaram os Sagrados Vasos, profanando
a presença
eucarística de Jesus que agora era humilhado até ao
extremo. “Ele não abriu a boca” diante
dos ultrajantes, mas a sua voz fez-se ouvir a Maria
de Brito que, no Louriçal, permanecia em oração:
“-Minha filha, compadece-te de Mim, que, neste momento, sou crucificado
em Portugal.”
A mensagem divina deixou em seu coração marcas de profundo
sofrimento. Com a ajuda do seu confessor, foi discernindo o significado
do apelo divino e
em escuta silenciosa acolhe o pulsar do Coração de Cristo
que, como sinal de predestinação a chama por um nome novo:
Maria do Lado.
Nem a morte da fundadora, nem as vicissitudes consequentes
abalam a comunidade nascente que, em 1709,
se agregaria à Segunda
Ordem Franciscana tomando a designação de
Clarissas do Desagravo. Qual colmeia rejuvenescida multiplica-se
em novas
Comunidades: Vila Pouca da Beira (1780),
Montemor-o-Novo (1780) e Lisboa (1782). Em 1965 e 1980,
dois grupos de Irmãs
partiram a fim de erguer novos tronos de
adoração
eucarística, em Monte Real e Montalvo, respectivamente.
Outras Irmãs ajudaram a reconstituir a Comunidade
do extinto Conventinho, em Lisboa, que, posteriormente,
se projectaria
em novas fundações: Fátima, Sintra
e Lisboa.
Desde as origens, em 1631, a presença de Jesus
no sacrário atraiu
numerosas jovens enamoradas d’Ele, capazes de tudo deixarem pela
aventura do convite evangélico: “Vinde ver.” Mergulhando
no espírito
de Clara de Assis que, contemplando o rosto de Cristo se transforma na
imagem de sua divindade, as Clarissas do Desagravo, penetram no santuário
que é o
Coração de Cristo aberto pela lança e conformam-se
com Ele na oblação suprema como expressão de louvor
e glória.
No interior do claustro, recolhidas na fenda do rochedo divino, acolhem,
em seu coração, toda a humanidade e devolvem-na a Deus,
num acto de súplica e louvor. Perdidas em Deus e para Deus, proclamam
que só Ele
basta e na simplicidade da sua vida, apresentam a meta para a qual a
comunidade eclesial inteira caminha fixando o olhar em Cristo. Vivendo
em fraternidade,
partilham, na alegria ou na dificuldade, as tarefas de cada dia, dando
testemunho fraterno do amor trinitário.